Achei fantástica a história dessas duas garotas de São Paulo que fugiram da “cidade grande” – segundo palavras das próprias – para conhecer o mundo. Tudo bem que elas não foram tão longe e chegaram só até Curitibanos (SC), mas a intenção destas destemidas e românticas meninas, que têm 15 e 16 anos, foi demais! Remete ao filme Telma e Louise, só que com mais profundidade, pelo menos pra mim! São meninas, quase mulheres, que não chegaram, como as protagonistas do filme, nos questionamentos dos 30 e tantos – momento da vida em que as questões existências afloram. Elas saíram a pouco da puberdade e queriam a aventura própria da idade que têm. Mas, hoje, não existem mais viagens de descoberta do mundo, tão comum aos jovens que tiveram sua adolescência antes do início dos anos ´90 , a não ser através do universo virtual!
Fiquei me perguntando se seria “muito cedo” para estas meninas fazer essa viagem de autoconhecimento e de conhecimento do mundo exterior? À primeira vista, parecia que sim, devido a violenta realidade que temos nas ruas. Mas esse “muito cedo” fez acender, em mim, aquela velha lâmpada que indica que algo diferente está no ar! De que uma centelha que instiga toda uma geração foi acesa!
A minha leitura desse acontecimento é que estas meninas queriam fugir do seu mundo! Não estavam atrás das questões que vêm com a maturidade! Não tinham problemas com seus pais e, até onde pude perceber, são de famílias que desfrutam de certo conforto financeiro. Então, qual a razão de “fugir” para conhecer o mundo, se isso pode ser feito de forma segura, tranqüila e transparente? Eu respondo: elas estavam sufocadas! Sufocadas pelo mundo tecnológico-virtual que cerca e impõe um estilo de vida pré-programado. Pra mim, o ato dessa dupla foi pura rebeldia e é um indicativo do que a vida atrelada à tecnologia virtual tem feito com as pessoas – jovens, principalmente! A possibilidade de correr o mundo pela internet e não se expor ao mínimo risco de pegar o vento na cara e a poeira da estrada sendo, essa, a experiência máxima na vida, fez com que essas duas garotas se lançassem a uma aventura inocente e libertária!
Eu digo a vocês que elas conseguiram, mesmo tendo sido reconhecidas por um dono de hotel que chamou a polícia e acabou com o desbravamento e as descobertas das nossas jovens exploradoras apenas 5 dias após o início da jornada!
No show da Rosa Tatooada, no Opinião, fiquei conversando com o Duda Calvin, do Tequila Baby, sobre as crianças criadas no sistema de casa, escola, família, internet e nada mais (vê lá se isso é papo de 2 roqueiros!). Ele, como professor de história, contava que isso já acontecia nos EUA e na França, há mais de 10 anos e que aqui, no Brasil, começava a acontecer. A aventura dessas duas meninas marca um sentimento que está dentro de toda uma geração que vive desconectada do mundo real. Elas foram as primeiras a romper a barreira, chamar a atenção e a concretizar a revolucionária aventura de sair do sufoco de um modo de vida que não permite brincar na rua de “polícia/ladrão”, andar à noite pela cidade nem ir à pé comprar pão na padaria.
Eu sei que a essa altura alguns de vocês deve estar me chamando de romântico e que os tempos de hoje são outras e blá, blá, blá … Talvez eu realmente seja, como diz o Lulu, o último romântico! Bem, mas se ele é e eu também sou, não somos os únicos!
De volta aos trilhos do devaneio, me parece que ainda não encontramos o equilíbrio de tudo que a vida tecnológica pode nos dar. Na verdade, acho que, mais do que nunca, a inversão de valores está chegando no seu pináculo e veremos, muito em breve, mais pessoas, à exemplo dessas duas garotas, tentarem romper a bolha sócio-cultural-tecnológica que insiste em nos engolir.
Socorro!! Alguém me ajuda!
Bjs,
nvs