Mobilidade e Solidão

Mobilidade e Solidão

Num dia desses, quando eu estava chegando em casa parei o carro numa curva que levava até uma avenida de grande fluxo de veículos. Enquanto estava parado ali, esperando minha vez de entrar na manada de carros, observei os semblantes das pessoas que cruzavam à minha frente, na maioria das vezes sozinhas dentro de seus carros, e pude constatar que estas pessoas estavam se movendo, indo para algum lugar encontrar alguém ou fazer alguma coisa – não queriam ficar sós.
Desde que a roda foi inventada, uma série interminável de veículos tem sido montada sobre ela. Dos carros de tração animal, passando pelos à vapor, até os de motores à explosão, a variedade é enorme. O objetivo destas invenções foi a mobilidade.
Desde que há veículos é assim: as pessoas se movem, viajam, deslocam-se a outros lugares buscando alguma coisa ou, simplesmente, querem deixar, não no seu destino, mas na sua origem, o fantasma da solidão. O ímpeto primeiro que desloca estas pessoas da inércia paralisante da comodidade de suas casas é o medo da solidão. Nada além da solidão! Solidão.
Vendo todos aqueles carros passando, durante os instantes que fiquei parado, esperando minha vez, me fez constatar que as pessoas que se movem são sós. A mobilidade e a solidão são parceiras.

Há cerca de uns 15 anos, começamos a conhecer e travar contato, de forma exploratória, à medida que este novo veículo se desenvolvia, com a internet. Uma nova roda tinha sido inventada! E como acontece com toda grande invenção, uma onda de novos recursos e desdobramentos passou a ser possível a partir daquela nova base. Era a roda – segunda edição!
Hoje, com a internet, a comunicação através do globo não conhece mais barreiras físicas. As conexões entre as pessoas são plenas, no que tange a comunicação. A criação de redes de relacionamentos na forma de amizades virtuais – impossíveis no mundo físico – garante a mobilidade das pessoas sem a necessidade da locomoção física. É como matar a fome apenas olhando para a comida!
Bem, talvez a internet seja uma valiosa possibilidade para auxiliar as pessoas a se relacionar umas com as outras, mas essa busca incessante, essa necessidade de mobilidade, ainda que sem sair do lugar, não altera o mesmo drama humano de sempre: a solidão.
A mobilidade, nos primórdios da humanidade, há centenas de milhares de anos – ou se você é criacionista, há cerca de seis mil anos – se impunha com o objetivo de buscar comida e água. Hoje, temos o supermercado e a tele-entrega – teoricamente não precisamos nos mover. Mas o ímpeto continua. É a nossa velha conhecida solidão, outra vez, ditando nossos passos.
Talvez haja mais do que comida e água a ser buscado. Talvez a própria preservação do que cada indivíduo é seja a chave deste ímpeto que se mantém. Talvez a solidão seja a razão de estarmos aqui, talvez seja o porquê. Talvez a solidão seja a melhor amiga do homem.
Nessa busca pela compreensão eu movo meu pensamento, buscando respostas pra perguntas que ainda não aprendi a formular.
Já dominamos a mobilidade do corpo com os veículos que inventamos; já dominamos a mobilidade da comunicação com as possibilidades do mundo virtual. Falta saber o que virá a seguir nesta nossa interminável jornada rumo à solidão.
Bjs e bom final de semana pra vocês!
nvs

Velho Amigo

Há algumas horas atrás, estava no palco que a prefeitura de Porto Alegre montou na beira do Guaiba, junto à Usina do Gasomentro, participando do show do meu velho parceiro da banda TNT, Charles Master.
Foi o show de lançamento do novo cd dele, chamado “Ninguém é Perfeito”, e que tive o prazer de participar.
Tocamos algumas velhas conhecidas do grande público que compareceu lá para prestigiar o Charles e o nosso encontro no palco depois de, talvéz, mais de 20 anos! Foi divertido e leve – como tem que ser!
Amanhã, vocês já sabem, será a minha vez de fazer, dentro das comemorações do aniversário de Porto Alegre, um show gratuíto na praça da Encol. E, dessa vez, será a minha chance de convidar o Charles pra participar do meu show e tocar algumas daquelas canções que vocês todos conhecem decor!
Bom, é isso aí!
Sábado fechou com chave de ouro e domingo promete!
Estão todos super convidados para aparecer lá na Encol às 17hs.
Haverá camisetas e cds meus à venda para quem quiser completar a sua coleção!
Nos vemos lá!
bjs,
nvs

Show em Porto Alegre

Show em Porto Alegre

No próximo domingo, dia 22 de março, vou fazer um show na Praça da Encol, em Porto Alegre. Vai ser um show gratuito que acontecerá dentro das comemorações de aniversário da cidade. Está marcado para às 17hs.
Levarei para o palco, além da minha banda, um convidado muito especial que é meu antigo parceiro na formação original do TNT. Trata-se de Charles Master! Será a primeira vez em muuuuuuitos anos que faremos uma parceria no palco. Na verdade, será a segunda, pois, na véspera, dia 21, sábado, o Charles estará fazendo a abertura das festividades num show de lançamento do seu novo cd solo – Ninguém é Perfeito, que é um cd muito bacana e que foi a trilha sonora nas minhas férias de verão – quando farei uma participação.
Considerem-se convidados para curtir os shows!
Bjs,
nvs

Bullying

Bullying

Vivemos em dias de competição ferrenha e ferocidade social. Estas batalhas são travadas desde os tenros anos de iniciação educacional e se perpetuam na adolescência e idade adulta, se o individuo não tiver força para superar estes obstáculos. Novos distúrbios de comportamento são conceituados e tratamentos são propostos para tentar mitigar os efeitos danosos que causam àqueles que sofrem seus efeitos.
O “Bullying” é um distúrbio que tem crescido na mesma proporção em que é escondido ou negado e varrido pra debaixo do tapete.
Ora, quem nunca sofreu brincadeiras de mau gosto de seus colegas de aula e foi chamado por apelidos pejorativos em algum momento da sua vida escolar? Eu fui. Acho que muitos de vocês também! Depois, cada um se vinga de mundo do jeito que consegue! Eu tenho me vingado usando minha guitarra! …rsrs.
Um menino que é um pouco mais delicado já é chamado de “bicha” pelos colegas; uma menina um pouco mais tímida, já é tratada como “a estranha”; um garoto um pouco atrapalhado é o pateta, e assim vai! Há, ainda, todas as questões raciais e religiosas que são, também, alvo de “pegação”. A dignidade, no que tange as características do indivíduo, é desprezada se não estiver de acordo com o que se espera e, imediatamente, essa pessoa vira alvo de “brincadeiras” maldosas, podendo se transformar no que hoje chamam de “Bullying”.
Tenho a impressão que isso sempre existiu e sempre existirá. A questão mais importante é de que forma isso é detectado e tratado pelos envolvidos: as crianças que sofrem e praticam e as escolas – ambiente onde geralmente isso acontece.
Na escola onde o Theo estuda houve um caso com a irmã de uma coleguinha dele. Os pais, que são pessoas educadas, zelosas e atentas com suas filhas, detectaram o problema e alertaram a escola. A escola tomou providências e buscou auxiliar a família na complicada situação criada. Não há solução fácil e, muitas vezes, a melhor alternativa é mudar a criança alvo de “bullying” de escola – que foi o que acabou acontecendo. Os pais da menina que sofreu essa maldade dos colegas escreveram uma carta aberta a todos os colegas da irmã– coleguinha do Theo –, justificando a troca de escola e foram muito sinceros e desprendidos por dividir o problema com os outros pais. Todos nós ficamos tocados e chateados com o que ocorreu e, de forma silenciosa, nos solidarizamos com eles.
Esta semana, tivemos a primeira reunião de pais na escola deste ano e a professora nova da turminha do Theo não sabia da razão pela qual uma coleguinha – a irmã da que sofreu “bullying” – tinha saído, aparentemente. Um dos pais, de outro coleguinha, ficou espantado pelo fato dela não saber e, depois da reunião, foi falar com a professora para contar o que tinha acontecido.
É natural que a escola não queira alardear o que ocorreu para não causar constrangimento às vítimas. Mas me parece bastante óbvio que a razão principal para não compartilhar esse fato com os professores e pais é o fato de que nenhum pai e mãe fariam gosto em colocar seu filho numa escola onde comprovadamente ocorreu um caso de “bullying”, que culminou com a saída da criança da escola.
Isso é grave!
A escola deve abrir o problema aos professores e pais e, assim, buscar prevenir novos casos. Uma escola deve cumprir seu papel de educar, inclusive em casos difíceis como este!
É uma situação desconcertante. Há solução?
Bjs,
nvs

A Grande Virada

A Grande Virada

“O trampolim nos catapultou sobre a vela – assim, fomos jogados no mar e ficamos à deriva.”

O dia estava convidativo, as crianças brincavam na beira da praia, o almoço estava sendo preparado pela Tininha e o espumante já estava no gelo, aguardando nosso retorno, acompanhado de algumas ostras – especialidade da região. Com esse clima saímos, eu e meu irmão do meio, Joel, para a primeira velejada dele.
O Hobie estava impecável a não ser por um pequeno estalo estranho que eu tinha escutado na velejada da véspera e que parecia não ser nada de mais. Mesmo assim, eu tinha revisado todo o barco antes de sair e não tinha encontrada nada de errado. Tudo estava em seu lugar!
O nordeste estava apertando e os carneirinhos – espuma que se forma na superfície d’água quando o vento está forte – dava sinal de que teríamos uma velejada inesquecível, com muita velocidade e adrenalina. Eu já conseguia visualizar a nossa volta pra praia, a favor do vento, surfando as ondulações de bom tamanho que entravam na baia.
Colocamos os salva-vidas, coloquei água doce na térmica de inox, que amarrei num cabinho junto ao mastro, e preparei o Hobie para entrar no mar. Dei as instruções ao Joel e ele subiu no trampolim, que é uma tela que fica esticada num quadro de alumínio que une os dois cascos do veleiro. Empurrei o barco pra água e subi nele, já baixando os lemes e caçando a escota. Saímos riscando a superfície do mar e cortando as ondulações, rumo leste, em direção à ilha do Francês, que fica em frente à Canasvieiras. O vento forte convidava à velocidade e eu estava confiante na minha habilidade de manejar o barco naquelas condições, ainda que o mar estivesse um pouco ondulado ou “grosso”, como dizem os pescadores locais.
Fomos tranqüilos, curtindo a velejada e cambamos para voltar à praia. Agora, estávamos ainda mais rápido do que na ida, pois tínhamos vento de través e contávamos com as ondulações que nos empurravam e davam, ao mesmo tempo, a oportunidade de surfar, descendo cada uma que nos alcançava. Quando uma delas chegava perto, eu caçava a escota, dando mais velocidade ao barco, e os cascos começavam a descer a ondulação, ganhando ainda mais velocidade. Demais!
Quando estávamos quase na metade do caminho e curtindo as “dropadas” nas ondulações o Joel, um pouco assustado com a velocidade e os movimentos do barco, perguntou se eu já tinha virado com o Hobie, justo quando descíamos uma ondulação grande. Deu tempo de dizer que ainda não tinha virado quando a canoa de bombordo embicou na água.
O trampolim nos catapultou sobre a vela – assim, fomos jogados no mar e ficamos à deriva.
Foi tudo muito rápido, pois estávamos navegando em alta velocidade, no limite do barco. Quando nos demos conta estávamos ensopados, enquanto o Hobie, capotado de lado, mostrava a parte de baixo das suas duas canoas. O mastro, de cerca 6 metros da altura, estava deitado sobre a água. Perguntei pro Joel se ele tinha se machucado e ele disse que estava bem. Eu também estava bem.
Tratei de tentar desvirar o Hobie: depois de subir na canoa que estava sobre a água e segurar com as mãos a que estava no ar, joguei meu peso pra trás e fiz força pra levantar o mastro. Não deu certo. As ondulações jogavam água sobre a vela fazendo peso e empurrando o mastro pra baixo da superfície e isso fez com que o Hobie fosse ficando totalmente de cabeça pra baixo, o que eu sabia que seria péssimo, pois não haveria chance de desvirar “no braço” se isso acontecesse. Mas, infelizmente, foi o que aconteceu.
Subimos nos cascos e tentamos, dessa vez com o peso do Joel, somado ao meu, mais algumas vezes sem sucesso. O vento e as ondulações começaram a nos empurrar para outra praia mais distante ou, pior, para um costão de pedras. Discutimos sobre a possibilidade de ir nadando até a praia, que não parecia estar tão longe, mas eu sabia, apesar da pouca experiência de velejador, que a distância no mar engana e que deveríamos estar a pelo menos 1 milha náutica da praia – pouco menos de 2km -, sem falar nas redes que eu sei que são colocadas por lá e pelo perigo de ser atropelado por alguma lancha. Argumentei isso com o Joel e decidimos ficar no barco, pois eu sabia que em algum momento passaria algum barco e nos daria carona até a praia.
Ficamos cerca de uma hora à deriva, até que o mastro começou a trancar no fundo de lama da enseada. Isso era bom e ruim. Bom porque não correríamos o risco de ser jogados contra as pedras do costão; ruim porque ficaríamos no mar até que alguma embarcação nos resgatasse.
No mar de Governador Celso Ramos existe, literalmente, centenas de embarcações, entre barcos de pesca artesanal até lanchas de turistas e veleiros, que cruzam as enseadas em busca de um recanto pra curtir. Mas durante o tempo que em ficamos virados no mar, não passou um só barco que pudesse nos avistar, e os pescadores, meus amigos, que sempre “me cuidam” no mar, estavam desatentos e não nos viram. O nosso pessoal, que estava na praia, não tinha “olho clínico” pra nos ver, ainda mais que estávamos a uma distância consideravelmente grande e ocultados pelas ondulações do mar “grosso”.
Depois de certo tempo ali, sentados nos cascos, o Joel me perguntou se havia tubarões naquelas águas e começou a falar sobre alguns filmes e de como deve ser angustiante estar em alto mar, sem saber o que poderia acontecer – justamente a situação que nos encontrávamos. Disse a ele que era melhor mudarmos de assunto e ficarmos tranqüilos, pois tínhamos muitas horas de sol e algum barco cruzaria nas nossas cercanias e nos ajudaria a sair dali. Ele concordou.
Enquanto estávamos virados, vi que a minha térmica de inox, que trazia água doce, tinha sido reclamada pelo mar, além do meu chapéu e o boné do Joel. Vi, também, que o estalo que eu tinha ouvido na velejada da véspera, tinha sido o rompimento de um tirante de aço que une os dois cascos e que ajuda a mantê-los no lugar. Comecei a ficar preocupado com a água que poderia entrar nos cascos, através dos pilares do quadro de alumínio, e, assim, dificultar o resgate do Hobie – ele poderia até afundar. De repente, vejo ao longe uma pequena lancha saindo de uma praia próxima, por entre as plantações de mariscos e ostras, e parecia que estava vindo em nossa direção. Disse ao Joel que achava que eles tinham nos visto.
De fato, depois de acompanhá-la com os olhos até que estivesse próxima o bastante para que seus tripulantes pudessem ver um aceno, acenei a eles pedindo ajuda. Eles vieram em nosso socorro!
Era um casal, mais uma amiga e dois filhos adolescentes que tinham saído pra passear.
Pedi que nos levassem até a praia onde traríamos socorro para o Hobie, mas o capitão do pequeno barco tinha experiência e sugeriu que tentássemos desvirar o barco.
Na primeira tentativa, depois de ter amarrado um cabo reserva que sempre levo num cabo da lancha salvadora, começamos lentamente a tracionar o Hobie de volta à sua posição normal. Enquanto o capitão da lancha dava ré e puxava o Hobie, eu estava montado nos cascos tentando direcionar o desvire. Não deu certo: o Hobie ficou com a popa na água e empinou, voltando a virar de lado. Bom, mas pelo menos conseguimos tirar o leme do fundo. A perspectiva era boa!
Na segunda tentativa, fizemos igual, porém com a experiência anterior, consegui fazer um contrapeso e deixar o barco na posição certa. O desvire funcionou! Rapidamente subi no trampolim e comecei a ajustar os cabos enquanto desatava o cabo do desvire que ainda estava ligado à lancha. Nesse meio tempo o Joel subiu pela popa e o Hobie, açoitado pelas ondulações, começou a empinar novamente! Um momento de adrenalina, pois todo o trabalho podia ir, literalmente, por água abaixo! O Joel foi rápido e, junto comigo, escalou o trampolim até perto do mastro, o que fez com que o equilíbrio fosse retomado e o Hobie voltasse, definitivamente, à sua posição normal.
Enquanto fazia os ajustes e tentava sair da posição aproada, convidei os nossos salvadores para nos acompanharem até a praia e brindarem conosco o final feliz dessa aventura. Eles foram amáveis, agradeceram o convite, mas resolveram seguir o seu rumo!
No caminho de volta ainda tivemos um pequeno susto quando vi que um dos cabos que ajusta a vela – o do travelling – estava passando por uma peça que tinha perdido um dos dois parafusos que a mantinha o lugar. Fiz um laço de emergência e chegamos a praia sãos e salvos!
Foi a grande virada! Depois de tudo, rimos e brindamos felizes por termos vivido essa aventura que virou mais uma história pra contar.
Bjs,
nvs